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Funcionária que sofreu racismo religioso em secretaria registra caso em delegacia

Caso aconteceu na Secretaria Municipal de Gestão (Semge), de Salvador, onde Silvana Silva da Paixão trabalha como mensageira há mais de 10 anos.

Funcionária que sofreu racismo religioso em secretaria registra caso em delegacia
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Vítima de racismo religioso na Secretaria Municipal de Gestão (Semge), da prefeitura de Salvador, Silvana Silva da Paixão, de 41 anos, denunciou o caso à polícia nesta quinta-feira (25). Ela foi à Delegacia dos Barris, acompanhada da mãe de santo, a Ialorixá Rosângela Ferreira.

Silvana é candomblecista e passou por iniciação na religião em setembro. As ofensas racistas contra ela começaram no dia 8 de setembro, após ela voltar das férias. Ela, que é funcionária terceirizada, trabalha na Semge como mensageira há mais de 10 anos.

A Ialorixá Rosângela, acompanhou sua filha de santo no registro da ocorrência e falou sobre a importância da denúncia, para que o caso seja formalizado e enquadrado como racismo religioso.

“É muito importante a gente falar, é muito importante a gente dar queixa sim, porque o que está acontecendo com a gente, de candomblé, já está desgastante, feio. A gente é atacado o tempo todo, então temos que a acabar com isso”, destacou.

Rosângela também relatou que depois de ser ofendida e ameaçada, Silvana mudou de comportamento. De uma mulher alegre e extrovertida, ela passou por um estado de apatia e retração.

“Já presenciei ela chorando nos cantos. Ela era uma pessoa brincalhona, corria os cantos da casa, dava risada com todo mundo, brincava com todo mundo. E logo quando ela voltou a trabalhar, iniciada, eu comecei a perceber a mudança dela. Ela começou a ficar retraída. A gente perguntando a ela o que estava acontecendo, e ela sempre sem querer falar, sem responder”, pontuou.

 

Por causa da situação de racismo religioso, a Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro Ameríndia (AFA) notificou a secretaria. A medida foi tomada por Leonel Monteiro, que é presidente da instituição.

"Nosso posicionamento é ir ao enfrentamento, coibir a intolerância e fazer com que essas pessoas que praticam sejam punidas. Não é possível que as pessoas não compreendam que é preciso respeitar as diferenças, que as pessoas seguem na sua vida o que acham melhor, inclusive no campo religioso", afirmou.

"Esses ataques gratuitos, em dizer que ela já estava na hora de parar de vestir branco, de dizer que ela parecia bicho comendo de colher, é intolerância religiosa. Uma pessoa, chefe de setor, que está ali nos quadros da prefeitura, exercendo uma função pública, deveria no mínimo respeitar seus subordinados".

Ainda segundo o presidente da AFA, é preciso potencializar o programa de combate à intolerância e ao racismo institucionalizado.

"A intolerância não parte só do seu chefe imediato, mas de outros servidores também que já a chamaram de macumbeira pejorativamente. A prefeitura precisa tomar uma atitude para responsabilizar este chefe de setor, porque para nós ele é uma pessoa que não está preparada para exercer função de chefia", destacou.

"Como um líder pode tratar seu subordinado dessa forma? Com intolerância? Com racismo religioso institucionalizado?", questionou.

Em nota, a prefeitura disse que a denúncia feita pela funcionária, que presta serviços terceirizados, está sendo apurada, com colaboração da Secretaria Municipal da Reparação (Semur), para adoção de medidas cabíveis.

A Semge informou, em nota, que repudia atos de discriminação de qualquer natureza e vai agir para combater esse tipo de situação, garantindo o respeito no ambiente de trabalho e na prestação de serviços à população.

Ofensas racistas
Funcionária terceirizada denuncia intolerância religiosa em secretaria de Salvador — Foto: Reprodução/Redes Sociais

Funcionária terceirizada denuncia intolerância religiosa em secretaria de Salvador — Foto: Reprodução/Redes Sociais

Durante os dias que esteve ausente da secretaria, Silvana passou pela iniciação na religião do candomblé, que é popularmente chamado de "fazer santo", e cumpriu as obrigações no terreiro.

 

"Saí de férias, fiquei o mês de agosto na roça [terreiro] e quando voltei dia 8 de setembro que começou a intolerância religiosa. Falaram das minhas vestes, do meu ojá [tipo de turbante usado na cabeça], do meu cabelo que foi raspado, do modo que eu estava comendo, porque como sou Ìyàwó [filho ou filha de santo que ainda não tem 7 anos de iniciação] é diferente de Ekedi [que é um 'cargo' mais alto na religião]", explicou.

"O chefe de manutenção chegou e perguntou se eu tinha desaprendido a comer de garfo e faca, porque estava comendo em prato diferente e de colher. Outra vez ele falou minhas vestes, disse que eu estava usando branco e chamando muito a atenção da secretaria, que eu tenho farda e que não era para usar mais branco", complementou.

Além disso, Silvana relatou que era chamada de macumbeira de maneira pejorativa. Ela também contou que foi vítima de constrangimento e ameaça, e de ter sido excluída pelos colegas do setor onde trabalha. "Às vezes no refeitório, no meio de todo mundo, ele dizia 'cessa o assunto que chegou a macumbeira'".

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