Vinte e oito organizações da sociedade civil assinaram um documento contra a instalação de uma unidade da Polícia Federal na Avenida Soares Lopes, em Ilhéus. O abaixo-assinado foi encaminhado ao prefeito Valderico Júnior e a autoridades federais e reacende um debate que a cidade já travou antes: o que pode e o que não pode ocupar a orla.

O que está em jogo na Soares Lopes

A avenida é um dos espaços mais simbólicos de Ilhéus. Frente ao mar, frequentada por moradores e turistas, ela carrega uma identidade construída ao longo de décadas ligada ao lazer, à cultura e à paisagem aberta. Colocar uma estrutura institucional de grande porte ali não é uma decisão neutra.

Os organizadores do movimento deixam isso claro no documento. O argumento central é que a proposta vai na contramão do que a própria população indicou quando teve voz no assunto.

E aqui está o ponto mais forte da mobilização: em 2022, o processo participativo Orla Viva reuniu moradores justamente para discutir o futuro da região. Uma das diretrizes que saiu desse processo foi evitar construções institucionais de grande porte na orla, com prioridade para projetos de uso coletivo e caráter sustentável. Quatro anos depois, essa diretriz parece ignorada.

Ambiente como argumento

O grupo também aponta a sensibilidade ambiental da área como fator que exige cautela. Para os signatários, qualquer intervenção na orla precisa passar por critérios técnicos rigorosos e, sobretudo, por um processo real de participação popular — não por decisões tomadas de forma unilateral.

Não é um argumento menor. Orlas urbanas costumam concentrar ecossistemas frágeis e pressões urbanísticas simultâneas. Instalar ali uma delegacia federal sem debate público seria, no mínimo, um sinal ruim sobre como o poder público enxerga esses espaços.

A mobilização em números

O apoio de 28 entidades dá ao movimento um peso institucional que vai além de uma petição de moradores insatisfeitos. São organizações formalizadas, com representatividade em diferentes setores da cidade, o que torna mais difícil para o poder público ignorar o pedido.

O abaixo-assinado já estava em circulação quando a adesão dessas organizações ampliou sua visibilidade. Agora, o documento está nas mãos do prefeito e de autoridades federais. A resposta — ou a ausência dela — vai dizer muito sobre como a gestão municipal trata o patrimônio urbano e a participação popular.

Por enquanto, nenhum posicionamento oficial foi divulgado.