Queria água. Encontrou um líquido preto, denso, com cheiro de combustível. E até hoje ninguém sabe ao certo o que é.
O agricultor Sidrônio Moreira, de 63 anos, perfurava o solo do seu sítio em Tabuleiro do Norte, no interior do Ceará, quando a substância começou a jorrar — isso em novembro de 2024. A família não tem água encanada em casa e a intenção era abrir um poço artesiano. O que saiu do chão a 40 metros de profundidade não era nada parecido com água.
Mais de um ano e meio depois da descoberta, a resposta oficial ainda não veio.
O que a ANP diz até agora?
A Agência Nacional do Petróleo (ANP) foi acionada pela família ainda em julho de 2025. A visita técnica ao sítio só aconteceu em 12 de março de 2026, sete meses depois da notificação e após o caso ganhar repercussão na imprensa. Em 14 de abril, a agência foi novamente consultada sobre o andamento das análises. A resposta foi curta: "a análise da amostra ainda não foi concluída".
Nenhum prazo. Nenhuma previsão.
Isso é, no mínimo, frustrante para quem está esperando. A família perfurou o solo em 2024, comunicou o achado em meados de 2025 e, quase dois anos depois, segue sem uma resposta definitiva de um órgão federal.
O que os primeiros testes já mostraram
O Instituto Federal do Ceará (IFCE), que tem um campus em Tabuleiro do Norte, foi o primeiro a investigar o material. Os testes feitos pelo instituto mediram viscosidade, densidade, ponto de fulgor e realizaram análise por Espectroscopia de Infravermelho com Transformada de Fourier (FTIR). O resultado dessas análises foi claro: o comportamento físico-químico do líquido é extremamente similar ao petróleo das jazidas da Bacia Potiguar, no Rio Grande do Norte, região vizinha.
Mas "similar" não é "confirmado". Segundo Adriano Lima, engenheiro químico do IFCE, a palavra final só pode partir da ANP, que precisa fazer análises mais específicas, como medição do teor de compostos saturados, aromáticos, resinas e asfaltenos, além de verificar se o material tem de fato origem geológica.
Uma amostra também foi enviada à Universidade Federal do Ceará (UFC), que tem laboratório especializado para esse tipo de caso.
Por que o achado chamou atenção dos técnicos
Quando a equipe da ANP chegou ao sítio de Sidrônio, em março, o que viram os surpreendeu. Ildeson Prates Bastos, superintendente da agência, foi direto: "Isso nos causou um pouco de espanto". O motivo é técnico, mas vale entender.
Petróleo geralmente é encontrado em profundidades muito maiores. Extrair 40 metros de solo e encontrar uma substância com essas características é fora do padrão. A ANP reconhece que pode haver um processo de exsudação natural na região, considerando que o local fica numa borda de bacia sedimentar, mas descartou que seja esse o caso aqui.
Os técnicos não coletaram uma nova amostra no local nessa visita. Levaram consigo uma amostra que já havia sido coletada pelo IFCE.
Se for petróleo, Sidrônio fica rico?
Não exatamente. A Constituição Federal é clara: o subsolo e tudo que está nele, incluindo petróleo, é propriedade da União. Sidrônio não teria direito ao material em si.
Ainda assim, se a área for considerada viável para exploração comercial, o proprietário da terra tem direito a receber um percentual do que for produzido. Esse repasse pode chegar a até 1%, dependendo de uma série de fatores que seriam avaliados ao longo do processo.
Tem um "mas" importante nisso tudo: a ANP ainda precisa avaliar se a área tem volume suficiente para justificar exploração. Outros casos parecidos já foram arquivados porque os acúmulos eram pequenos demais para serem comercialmente viáveis.
Enquanto isso, a família segue sem água
Sidrônio queria resolver o problema da água. Esse problema ainda não foi resolvido.
A família depende de uma adutora da região, de carros-pipa enviados pela prefeitura e compra água mineral quando necessário. Com a repercussão do caso na mídia, a adutora foi reforçada no fim de março e voltou a atender o sítio com mais regularidade. Mas a situação continua longe do ideal para quem só queria uma torneira funcionando em casa.
O próprio Sidrônio resume bem o que sente sobre tudo isso. "Eu não quero riqueza, quero dinheiro para sobreviver", disse ele. Para o agricultor de 63 anos, o que importa mesmo é resolver o básico que nunca chegou ao sítio dele: água encanada.
A ANP abriu um processo administrativo formal para apurar a descoberta. Não há prazo definido para encerramento. O desfecho dessa história, por enquanto, é uma caixa preta tão misteriosa quanto o líquido que jorrou daquele poço.